terça-feira, julho 10, 2012

O Céu, as estrelas e a chuva da morte...


PARTE UM: A Noite Macabra...



Olá! Provavelmente você descobriu este manuscrito em alguma biblioteca universitária do Brasil, meu país. De onde exatamente, eu não sei. Meu nome é William e saiba que estou, a partir destes segundos, lhe confiando algo de grande importância. Não se sinta com sorte ou, dependendo de seu estado de espírito, com azar. Pelo menos eu acredito que o destino sabe das coisas, e se você chegou até esta carta apenas use sua sabedoria. Deixe que seus instintos te guiem e sua razão lhe mostre os limites necessários. Seja Sábio! A partir de agora, dê adeus a muita das coisas que você acredita.

Sabe o que é viver acreditando que sua realidade é simplesmente “a realidade” e, de repente, você toma um baque que te deixa desnorteado? Se não sabe, vai saber, mas se sabe, conhecerás agora uma história em que isso chegou ao limite extremo da compreensão. Não estou querendo lhe assustar, só quero que você saiba exatamente como aconteceu.

...

Quando tudo aconteceu tinha meus 20 anos. Era um adulto extremamente racional, que só acreditava no que era empiricamente comprovado. Nunca gostei de mitologias, religiões e nada que fosse de um teor muito fantasioso. Vivia somente pelo o que meus olhos podiam enxergar, ou os fatos concretos podiam comprovar. Vivia de aparências e cálculos. Achava uma grande bobeira acreditar em “forças” invisíveis capazes de interferirem na vida das pessoas. Esse tipo de coisa não era compatível com o tipo de pessoa que eu era. Não conseguia respeitar a opinião de pessoas que acreditavam em coisas transcendentais. Se existisse algo verdadeiramente "fora do normal" eram essas pessoas. O futuro, às vezes, é algo que vem como um tsunami, e você no máximo se contenta em se adaptar.

Certa vez fui presenteado com um livro. E este livro não se parecia em nada com o que eu já havia lido. Pior, não tinha nada ali que eu apreciasse, só coisas que me faziam raiva. Era um livro chamado "O Medo - Matéria do Próprio Sonho". O livro dizia que o medo como uma foça da mente, um tipo de "energia" era capaz de moldar nossas vidas a ponto de nos tirar de nossa própria realidade. O medo seria uma espécie de "continuidade", algo que nos ligaria a "vidas passadas" e acontecimentos "já ocultos em nossa memória". O medo seria a marca, a ferida, aquele que sempre está em seu espírito. A obra ia além, dizendo que é a partir do medo que o nosso espírito adquiri sabedoria e evolui, é o que o caleja. É claro, achei tudo uma grande besteira. Vidas passadas? Espírito? Que coisa mais desinteressante e sem nexo. Nascemos, vivemos, morremos, apodrecemos e só. Nada mais além disso! 

A verdade é que algo ali pareceu fazer sentido e aquilo martelou minha cabeça por dias. Parecia um vírus em minha mente. Senti raiva por isso. Passei meus dias terrivelmente incomodado, como se tudo aquilo realmente devesse me preocupar. Isso mexeu tanto comigo que me vi tomando conclusões nada racionais, flertando com a superstição. Atribui todo aquele desconforto ao livro. Os dias se passaram e eu comecei a sentir fortes dores de cabeça. Deitava, dormia estranhamente eu acordava muito bem no dia seguinte. Nem tinha sonhos, era como fechar os olhos e abri-los no dia seguinte. Mas com o passar dos meses isso foi caindo no meu esquecimento. E assim as dores de cabeça foram embora.

...

Dois anos se passaram. Eu já estava quase me formando no curso de Matemática. Nesse tempo, me tornei um grande amigo de um cara chamado Miranda. Ele era muitíssimo inteligente. Dava-me inúmeros conselhos quanto ao uso excessivo da racionalidade. – As pessoas racionais demais estão sempre muito ocupadas para viver. Um dia você ainda será ludibriado por algo que você muito desacredita – alertou-me. Não imaginava o quanto de verdade havia naquelas palavras. Deveria ter ouvido mais meus amigos.

...

Um dia resolvi a praia. Sempre gostei de olhar o mar e afundar meus pensamentos nele. Ia longe. E dessas inúmeras reflexões a palavra "medo" surgiu como um flash. Imediatamente eu comecei a lembrar de tudo que havia lido naquele livro. Deixei minha mente livre para fazer perguntas: "Será que realmente os espíritos ficam vagando de corpos em corpos de geração a geração? Será que eu, William, sou apenas mais de algo muito mais permanente?" Com um balançar de cabeça rejeitei todas essas hipóteses. Levantei corri até o mar e mergulhei tais loucuras no profundo do oceano. Na volta para casa minha cabeça começou a doer. "Maldito sol, queimou meus miolos", pensei. Só que me veio a mente a lembrança das dores de cabeça que eu sentia quando havia lido o livro. "É um absurdo. Amanhã será diferente. Acordarei bem!", disse para mim mesmo ao chegar em casa e me deitar. "Pelo menos eu só fecharei os olhos e estarei melhor." E foi assim que em um dia de primavera eu me levantei da cama eu fui para o trabalho. O dia estava incrivelmente bonito. O céu estava limpo revelando um azul de cor riquíssima. O clima estava agradabilíssimo. E até mesmo as pessoas pareciam ter acordado de bem consigo mesmas. Todo mundo estava com um semblante sereno e amigável. As coisas estavam boas até demais. Mas apesar disso, não suspeitei de nada. Para quê? Tudo estava correndo bem e o dia era bom, não havia necessidade de questionar coisas em tão perfeita ordem. Essa foi minha ruína.

Fiz o meu trabalho avidamente sentindo uma estranha empolgação. Parecia uma criança louca para terminar o dever de casa e curtir a vida. Ao sair do trabalho encontrei meu parceiro, Miranda. Ele tratou logo de me avisar que nossos professores estavam em uma reunião importante e hoje não dariam a aula. Abri um leve sorriso, como se esperasse algo do tipo para aquele dia. Não tendo o que fazer resolvemos, eu e Miranda, dar uma caminhada pelos grandes pátios arborizados da universidade, a modo de colocarmos a conversa em dia. Falamos sobre nossas namoradas, nossos clubes de futebol, sobre filosofia, até pararmos em um espaço aberto de onde dava para ver o céu sem nenhuma interferência de iluminação artificial. – Noite limpa essa, não?  - disse eu analisando o que via. – Nunca vi um céu tão estrelado! – rebateu Miranda. – Talvez seja só a ausência da luz dos postes de energia – sugeri. – Não! Há algo de diferente no ar – disse ele intrigado. – Vai dizer que agora você anda usando drogas? – brinquei. – Viu aquilo? - indagou-me. – O que? – perguntei espantado.

Foi aí que eu vi algo bizarro. Algumas estrelas começaram a se morrer de um lado para o outro, confundindo-nos. Não eram estrelas cadentes, pois estas caem e não fazem elipses no céu. O movimento destas foi aumentando de velocidade até sermos incapazes de acompanhá-los. Quando nos demos conta, vários outros conjuntos de estrelas faziam o mesmo movimento, transformando o céu em um frenesi total. O seu brilho, cada vez maior, foi nos jogando contra o chão nos privando de ver o que acontecia. Estávamos hipnotizados. E mesmo agora, não posso me recordar exatamente do que aconteceu. Só me lembro de estar caído sobre um campo aberto, por entre as árvores e um ruído grave me ensurdecendo, penetrando em minha alma, me paralisando e me dando tremores. Estávamos, eu e Miranda, dominados por uma força desconhecida e invisível, até ouvirmos um baque parar tudo!

Aos poucos fui retomando o fôlego e a consciência, e reparei que Miranda passava pelo mesmo processo. Quando consegui ficar de pé, tudo parecia estar no lugar. E um silêncio súbito reinava no ambiente. Eu estava surdo? Não sei! Mas após alguns segundos pude ouvir alguns passos atrás mim (Clack.. Clack... Clack.. Clack...), me virei e constatei que era somente uma moça caminhando tranquilamente. E antes de imaginar ter passado por um devaneio, senti e ouvi um forte vulto (zuumm). Pude ver e ouvir que alguns arbustos se mexiam em vários cantos do pátio. Eu e Miranda nos entreolhamos, e quando pensei em dizer que deveríamos sair de lá ouvi um grito de desespero. Só meus pensamentos sabem o quão aterrorizante foi aquele momento. Senti meu corpo bambear com o susto. Olhei novamente para Miranda que estava com os olhos arregalados. Neste momento eu apresentaria aos meus olhos a visão mais horrenda e amedrontadora que minha curta vida já presenciara. Uma enorme fera, semelhante a um crocodilo? A um lobo? A um urso? Pouco importa. A verdade é que um monstro cheio de dentes e pêlos havia devorado metade da mulher que acabara de passar por nós. Em meu desespero tive consciência de olhar ao meu redor, observando que 50 metros depois do monstro passavam correndo quatro pessoas desesperadamente, e logo atrás vinham mais dois exemplares do mesmo monstro. Ouvi seu rugido (Grrrr), e quando o grupo entrou em meio às árvores, sumindo de minha visão, também pude ouvir gritos de dor. Senti raiva. Voltei-me para Miranda no exato momento em que ele bateu em meu ombro. – Corre porra!

Não sei se ele, e muito menos eu, sabia para onde corríamos. Creio hoje que só corríamos. Era nosso medo e desespero falando mais alto. Era nosso instinto de sobrevivência nos movendo por entre as árvores. Rumo ao nada, fugindo da morte, desejando estar no mais traiçoeiro dos pesadelos. Mas tudo era real, pois vi Miranda se jogar bruscamente para o lado enquanto uma fera investiu contra ele. Não faço idéia de onde ele tirou aquele reflexo, pois foi suficiente para desviar do monstro que cravou seus dentes em uma árvore. Passei pelo demônio e ajudei Miranda a se levantar. Corremos, muito, até chegar ao estacionamento a céu aberto da universidade, que tinha o tamanho de dois campos de futebol. Olhamos adiante, para a saída do estacionamento na ala norte, e vimos quinze pessoas sendo perseguidas por três monstros. Olhei para a ala oeste e percebi que por lá sete monstros trucidavam pessoas, as rasgando e jogando-as contra os carros. Como se uma força nos movesse, eu e Miranda corremos o máximo que podemos para a ala leste do estacionamento, onde havia uma parte coberta reservada aos diretores da universidade. Lá nos escondemos atrás de uns carros, dentre eles um Chevrolet Camaro. – Temos que chegar ao prédio de Matemática. Tenho as chaves de uma sala, onde podemos nos esconder – disse eu muito ofegante. – O que são essas coisas? Vamos morrer! – disse Miranda assustado. Nunca o vira naquele estado e creio eu que ele deveria estar pensando o mesmo de minha expressão. A morte, o horror e o desespero estavam diante de nós, e se não fizéssemos nada teríamos o mesmo fim de todas as pessoas que agora eram dilaceradas  em meio aos carros. – Isso é uma grande desgraça! Só pode ser um pesadelo – disse eu não acreditando no que via. – Como sairemos daqui e chegaremos em segurança ao prédio de Matemática? – perguntou Miranda. – Pelo único método que nos restou. Correndo muito!

Quando nos levantamos de nosso esconderijo e demos alguns passos a frente, uma fera caiu com seu corpo pesado sobre o Camaro, que ficou esmagado. Nos encarou. Provavelmente estava lá para nos atacar, e por sorte saímos na mesma hora. Saímos o mais rápido possível de lá, estacionamento adentro, e a fera nos perseguiu. Um meio fio que dividia as vagas dos carros me fez tropeçar e cair. A besta horripilante pareceu diminuir sua velocidade se preparando para investir contra mim. Olhei-a nos olhos, e vislumbrei a morte. Pude reparar que ela tinha três vezes o meu tamanho. Era o meu fim. Percebi a presença de Miranda atrás de mim, parecendo esperar que um milagre me desse alguma chance de sobreviver. Foi então que ela investiu. Fechei os olhos e esperei o meu julgamento final. Mas nada aconteceu além do barulho de um impacto violento. Quando abri os olhos (tudo parecia acontecer em câmera lenta) vi que um carro havia atingido em cheio o monstro, e agora ambos capotavam por cima dos carros. Deveria ser alguém tentando fugir, algo que infelizmente acabou em desastre, porque agora carro e monstro explodiam em uma imensa bola de fogo e destroços. Miranda me gritou, e eu entendo me levantei e voltei a correr. Tudo foi tão rápido que eu nem tive ao menos tempo de pensar no perigo que passei. Agora só corríamos em direção ao prédio de Matemática.

FIM DA PARTE UM

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Luz e sabedoria a todos!!

segunda-feira, julho 02, 2012

Bijuterias - João Bosco/Aldir Blanc – Análise

Um olhar sobre a canção do cantor e compositor mineiro João Bosco.



Aqui eu tentarei discutir um pouco do significado desta bela canção, contida no álbum "Tiro de misericórdia" de 1977. Ela percorreu mais de 30 anos até reaparecer firme e forte em 2011 no remake da novela "O Astro". É claro, né? Uma obra de João Bosco e Aldir Blanc sempre será atemporal, afinal estamos nos referindo a dois gênios da música brasileira.


Ela acabou, por incrível que possa parecer, entrando de última hora como tema de abertura da novela "O Astro" de Janete Clair em 1977. O produtor Guto Graça Mello estava a procura de uma canção que tivesse bastante afinidade com o tema místico da novela, porém, não obteve muito sucesso até tomar conhecimento das gravações do novo álbum de João Bosco, que viria a se chamar "Tiro de misericórdia". Guto então resolve visitar João no estúdio, para pedir alguma informação que o ajudasse. Foi quando ele decidiu escutar o que já havia sido gravado por João. E ao chegar a faixa n°9 a aceitação por parte de Guto foi instantânea.



Pois bem, história contada, agora mãos a obra.


E/D
Em setembro
Dm7/9
Se Vênus me ajudar
G7/9
Virá alguém
F#m7
Eu sou de virgem
F7M
E só de imaginar
Bb7/9 A7M 
Me dá vertigem

Vênus é a deusa do amor que ajudará a nossa pessoa de Virgem, nascida em Setembro, a encontrar seu amor. E isso lhe traz vertigem, dado o alto grau de realismo, e por ventura, pessimismo do virginiano. Repare como a harmonia criada por João Bosco nesta parte da música condiz exatamente com a letra de Aldir Blanc. Ela traz uma sensação de “plano das idéias” onde o narrador da história parece estar pensando sobre si mesmo, e de repente, dá-se um baque harmônico rumo a narrativa da história propriamente dita.

Dm7/9 
Minha pedra é ametista
G7/9
Minha cor, o amarelo
C7M
Mas sou sincero
Necessito ir urgente ao dentista

A pedra dele é a Ametista, que o auxilia a desvendar os sonhos e entender o plano celeste, papel de um bom esotérico. E sua cor é o amarelo, cor que o auxilia a entender os diferentes pontos de vista, e assim, assimilar uma sabedoria que o permita desvendar os mistérios da vida. Mas sendo sincero e realista, ele sabe que precisa ir ao dentista, pois ninguém é invencível. Assim como qualquer pessoa na face da terra, ele deve se cuidar, pois mesmo sendo de Virgem (um indivíduo extremamente racional) isto não o impede de ter defeitos como qualquer um. Reparem que nesta parte da harmonia, que já começa melancólica, exatamente na frase “mas sou sincero, necessito ir urgente ao dentista” ela ganha um peso mais obscuro com o acorde “C7M” mostrando a fragilidade humana.

F7M F#m7
Tenho alma de artista
E11+/B G#m7
E tremores nas mãos

Ele tem uma grande alma de artista, por assimilar bem as coisas, mas seu realismo o faz ter medo (tremores nas mãos), coisa que também é característica do lado negativo do amarelo. Os virgianos não dão margem à emoção por "temerem" serem domados por ela, daí o artista que treme. Interessante é a gangorra harmônica que temos nesta parte da música: Começamos em um grave “tenho alma” em F7M; atingimos o auge em “de Artista” em F#m7 (acompanhado do coro), dando uma demonstração nostálgica do que pode ser um virginiano artista; mas começa a decair para um estágio de certa incredulidade, devido ao “tremores nas mãos” em E11+/B e o G#m7 até culminar na próxima parte.

Bb7/13- Eb7M/9
Ao meu bem mostrarei
D7M/9 F#m7 
No coração. Um sopro e uma ilusão
B11
Eu sei

Mostrar o coração ao bem dele é uma ilusão, pois seu lado racional sempre falará mais alto ("eu sei"). Aqui a harmonia da música parece entrar numa “vibe” ilusória, bem de acordo com esta passagem, e os acordes F#m7 e B11 em seqüência parecem reforçar o “eu sei”, música e letra concordando ao mesmo tempo.

Em7 B4/C#
Na idade em que estou
F#7/13- F#7 F--E7--A7M
Aparecem os tiques, as manias

O virginiano por ser lógico e racional, é metódico, e uma pessoa idosa e metódica acaba adquirindo alguns tiques provenientes de suas "manias". A harmonia nesta parte atinge uma volta a realidade em “na idade em que estou” com os acordes Em7 e B4/C# dando uma impressão de preparação para o fim de uma história, até então decair pelas notas F#7/13-, F#7, F e E7, culminando em A7M constatando “as manias” de uma vida regada por metodismo.

E/D Dm7/9
Transparentes Transparentes
G7/9
Feito bijuterias
F#m7--F7M--Bb7/9--A7M
Pelas vitrines
Dm7/9
Da Sloper da alma

No fim de tudo, o que importa é você ser quem você é, transparente, feito uma bijuteria ou uma vitrine, que aqui no caso é a da Sloper, uma loja de Departamentos do RJ... E finalizando, a partir dessa transparência, dessa vitrine, a pessoa amada escolhe ou não se juntar (comprar) a outra. Aqui a harmonia volta ao seu estágio inicial do “plano das idéias”, ilustrando a conclusão das reflexões da pessoa em questão. E reparem que após a frase “da sloper da alma” a música entra em um arranjo de cordas simbolizando a paz de quem finalmente se encontrou com seu “eu”, vivendo de bem consigo mesmo, reconhecendo seus limites e sabendo onde pode chegar.


Espero que tenham gostado. Se gostou me segue. Grande abraço!






terça-feira, janeiro 10, 2012

O LEGADO DE JOHANNES KEPLER: O Defensor Da Ciência Empírica.

Em tempos de descobertas espaciais de novas estrelas, galáxias e planetas, através da sonda espacial “Kepler”, nada mais justo do que fazer uma homenagem a este astrônomo que faria 440 anos no último dia 27 de Dezembro de 2011.


Para um homem do século XXI, observar o cosmos já não consiste em uma tarefa tão difícil. Com muitos séculos de observação astronômica acumulada a humanidade já avançou muito nas descobertas dos mistérios que regem o universo. Difícil é entender como as pessoas do passado enxergavam o céu. Entender como os homens de séculos atrás de nós, compreendiam o espaço ao seu redor. Quais eram as concepções de universo dos estudiosos, e em que isso implicava na vida deles e de seus contemporâneos. Devemos lembrar que os homens daquele período nem sempre podiam se aventurar com a devida liberdade pelos mistérios da natureza, por motivos de força maior. O conhecimento científico, na verdade, o conhecimento como um todo não possuía a completa autonomia para se desenvolver e para questionar “a verdade científica da época”. É, portanto, necessário haver coragem para ir de encontro às concepções religiosas de seu tempo, sabendo que terá de enfrentar a fúria da mesma e possivelmente sofrer as conseqüências de tal coragem. É preciso ter bravura e confiança para questionar o que a ciência de seu tempo diz ser o certo, mostrando ao mundo novas formas de enxergar as coisas, seja pelos cálculos e os fenômenos da natureza, ou pela análise dos fenômenos históricos e sociais. Poucas pessoas na história da humanidade tiveram essa disposição. Para ser sincero, poucos foram aqueles que buscaram entender o mundo e o universo de fato. Utilizar o conhecimento de verdade, não somente como um meio de trabalho, com obrigações e compromissos. Uma investigação de fato, por puro prazer e vontade de se aprofundar nos mistérios da vida e da natureza. Mas de séculos em séculos, somos presenteados com almas assim. Uma dessas almas sem dúvida foi Johannes Kepler.

A Noite de São Bartolomeu 
Nascido em Weil der Stadt (sul da atual Alemanha, na época Sacro Império), no dia 27 de Dezembro do ano de 1571, Kepler era filho de Heinrich Kepler (um ex-soldado) e Katharina Guldenmann Kepler, uma família protestante. Era neto de Sebald Kepler, também protestante, que foi prefeito da cidade mesmo esta sendo católica. Nasceu em um contexto de conflitos político-religiosos (Reforma Protestante e Contra-Reforma) que assolavam toda a Europa. O questionamento dos assuntos religiosos pelo meio da ciência assombrava Católicos e Protestantes, que temiam perder seus fiéis, e assim suas influências. As fundações do meio religioso estavam fortemente abaladas e a estrutura vibrava com uma intensidade similar aos abalos sísmicos, que geravam ondas de violência caracterizando, portanto, um cenário de terror. E assim, o conhecimento científico representava uma grande ameaça à ordem estabelecida. As descobertas da ciência poderiam jogar por terra todas as crenças acerca do mundo e do cosmos, fazendo ruir de vez as edificações religiosas. Nesse contexto Kepler viveu, estudou, observou, teorizou, provou e revelou.

Sua família, devido aos poucos recursos, o enviou ao seminário para os estudos. Foi aprovado para estudar Teologia na Universidade de Tünbingen em setembro de 1588 (aos 17 anos), onde iniciou somente em 17 de setembro de 1589. Completou os estudos em Artes, incluindo grego, hebraico, física e astronomia em 10 de agosto de 1591, sendo aprovado no mestrado. Nesta época Kepler já havia tido contato com os textos de Nicolau Copérnico (1473-1543).

Nicolau Copérnico e a Teoria Heliocêntrica
Nicolau Copérnico, clérigo da Igreja Católica, foi um astrônomo polonês que rompeu com o conhecimento estabelecido desde o século primeiro que dizia que a Terra era o centro do Universo. Esta idéia foi difundida pelos escritos de Cláudio Ptolemeu (90-168) na obra “Almagesto”, uma síntese dos trabalhos anteriores de Aristóteles, Hiparco, Posidônio e muitos outros, focado em demonstrar e estabelecer o modelo geocêntrico de Universo. Por motivos estético-filosóficos, Copérnico viu no modelo geocêntrico, vários fatores que não faziam sentido. O principal deles era o movimento desferido pelos corpos celestes. A teoria que dizia que a Terra era o centro do Universo, estabeleceu que os planetas e o sol desferiam epiciclos ao redor do nosso planeta. Aos olhos de Copérnico isso não era belo. Foi aí que ele resolveu modificar o sistema. No centro do modelo ele colocou o Sol, o maior elemento presente no céu, e os demais planetas, inclusive a Terra, o orbitando. Foi então que Copérnico elaborou uma das teorias mais importantes da história da ciência, ao ponto de ser concebida como o ponto de partida da ciência moderna. Ao colocar o sol no centro ele percebeu que os planetas que completavam suas órbitas no céu mais rápido, automaticamente ficavam mais próximos do Sol, como Mercúrio e Vênus, assim como os planetas que realizavam seus movimentos com um tempo maior ficavam mais afastados. Foi como mágica! Estava fundada a teoria heliocêntrica.

Um planeta descrevendo epiciclos
Porém, Copérnico sabia que tais teorias poderiam vir a lhe trazer malefícios, sendo ele do meio religioso. Sabendo disso, só veio a publicar suas descobertas no leito de morte. Foi então que o mundo conheceu a obra “Das Revoluções das Órbitas Celestiais”, que dizia que o sol era o centro e não a Terra. E nesta obra Copérnico determinou: “Não há conexão mais perfeita entre o tamanho da órbita e a sua duração.” Ou seja, quanto mais um planeta é afastado de sua estrela (no nosso caso o sol), maior será a duração de sua volta ao redor. Talvez, esta tenha sido a primeira vez em que o homem olhou para o céu e percebeu que não era ele (o céu) que se movia, e sim a terra que se movimentava. Copérnico também foi o responsável por estabelecer que a Terra descrevia um giro ao redor de seu próprio eixo a cada vinte e quatro horas. Inspirado nestas descobertas Kepler veio a fundamentar novas idéias acerca do que víamos da Terra. Entretanto, ainda era necessário romper com alguns conceitos filosóficos que perduravam desde a Grécia Antiga.

Mistérios do Universo
Naquela época não havia distinção entre alguns ramos do conhecimento. E em 1594, Kepler é convidado a ser matemático em Graz, na Áustria, onde além de astrônomo e matemático, ele era astrólogo. Era responsável por prever boas colheitas, dias de bonança, de guerra, prever epidemias, dentre muitas outras coisas. Essa ausência de elementos que distinguissem Astronomia de Astrologia, se deveu ao fato do pouco conhecimento científico se comparado com os dias de hoje. Muitos dos fenômenos vistos da Terra eram interpretados como presságios enviados do plano divino. O céu era um mistério absoluto para os homens do início da Idade Moderna, que começavam aos poucos desvendar os enigmas do Universo e compreender um pouco mais da mecânica espacial. No ano de 1597, Kepler publicou sua primeira obra, que se chamava “Mistérios do Universo”, onde ele se mostrou um defensor da teoria Copernicana heliocêntrica, propondo novas formas de medir as órbitas planetárias com formas geométricas. Enviou, então, um exemplar ao astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), que desacreditava a teoria heliocêntrica de Copérnico por motivos teológicos. Um mesmo exemplar foi enviado a Galileu Galilei (1564-1642), que respondeu em uma carta agradecendo-o. Brahe, apesar de ser defensor do geocentrismo, ficou empolgado com as proposições da obra de Kepler, e em 1600 o apresentou ao imperador Rudolph II da Boêmia (1552-1616) , que o contratou como assistente de Brahe. Por ironia do destino, em 1601 Brahe faleceu, e Kepler herdou todos os seus estudos e o seu cargo como matemático oficial da corte.

Astronomia Nova

Talvez este tenha sido o maior dos presentes na vida científica de Kepler, pois a partir de então ficaram a disposição dele inúmeros relatórios de 20 anos de observação astronômica. A mais completa das análises, era em relação à órbita de Marte. Descobriu ter em mãos análises de precisões nunca antes atingidas. Contudo, ao tentar aplicar os cálculos às órbitas registradas por Brahe, Kepler viu que os números não batiam. O modelo circular aristotélico era impreciso. Essa concepção de mecânica celeste circular era uma idéia proposta no tempo dos gregos, que diziam que os corpos celestes só poderiam se movimentar na mais perfeita das formas, o círculo, que com certeza era uma criação divina. Kepler sabia da importância dos estudos Brahe, e de seus registros. O problema então deveria estar na geometria celeste. Buscou, portanto, primeiro compreender a órbita desferida pela Terra, se é que esta orbitava mesmo o Sol. Foi então que ele fez uma descoberta revolucionária. Percebeu que a Terra descrevia um movimento similar a um círculo, ficando o sol descentralizado. O que acontecia, era que a Terra e os demais planetas do sistema solar orbitavam o sol em elipses bifocais, com o sol em um dos focos. (Abaixo um exemplo de elipse bifocal, com o sol representado em um dos focos.) Os cálculos se encaixaram. Em 1609, publicou a obra “Astronomia Nova”, onde determinou duas das primeiras de suas leis.


O Sol em dos focos da elipse desferida pela órbita do planeta 

A primeira Lei de Kepler (lei das órbitas elípticas) diz: “os planetas movem-se em órbitas elípticas ocupando o Sol um dos seus focos.” Veja como o sol está em um dos focos da orbita elíptica de um planeta qualquer.


A segunda Lei de Kepler (lei das áreas): Percebeu nosso astrônomo alemão que o movimento dos planetas ao redor de uma estrela não era uniforme. Ao estar mais afastado da estrela no movimento orbital (Afélio), um planeta qualquer se movimenta mais de devagar, e ao estar mais próximo (Periélio), se movimenta mais rápido. Kepler foi o primeiro a tropeçar, no que meio século mais tarde Isaac Newton  (1643-1727) revelou ao mundo ser gravidade. Para falar a verdade, Newton se fundamentou nas Leis de Kepler para formular as leis da Gravidade Universal. É algo que nunca saberemos com toda certeza, mas fica evidente que a existência de Kepler e a formulação de suas idéias 50 anos antes, foram de extrema importância para o que Newton viria a descobrir depois. A ciência agradece! Baseado nestas observações Kepler determinou: "A linha que liga o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais." Como estará exposto na imagem, o que Kepler disse foi que dependendo da distância que um planeta estiver de uma estrela ele se movimento mais ou menos rápido. Imaginemos o A1 e o A2 na figura, dois cones no qual respectivamente denominarei Cone 1 e Cone 2. A linha que liga o sol ao ponto inferior do Cone 1 é um raio. Este é um ponto de partida. Imaginemos agora que como um relógio este raio se movimenta. Se contarmos X de tempo, a distância percorrida na elipse será aquela da figura A1 ou Cone 1. 

Duas posições de um planeta (Afélio e Periélio)
Note que produziu um Cone mais largo que o Cone 2 ou A2. Ou seja, por estar mais próximo do Sol (Periélio), Cone 1 ou A1 percorre um arco ou cone mais largo em relação ao Cone 2. E se fizéssemos a mesma experiência com A2 ou Cone 2, com o mesmo X de tempo, o cone produzido seria aquele da figura, mais fino, por estar mais afastado do sol (Afélio). Porém, apesar de mais largo, A1 ou Cone 1 é um cone mais curto em relação a A2 ou Cone 2 que é menos largo e mais comprido. Logo, se mais próximo do sol ou uma estrela qualquer, produz um cone mais largo e curto, e se afastado mais fino e comprido com o mesmo X de tempo de movimento. Segundo os cálculos de Kepler, os dois cones possuem áreas iguais, com a diferença que Cone 1 é largo e curto e Cone 2 fino e comprido. E ainda segundo ele, independente de que ponto esteja na órbita da elipse um planeta, a área será sempre a mesma, dependendo da proximidade ou não do Sol, que influência em sua velocidade. Eu vou chamar esta área de Y. Em síntese, se um planeta percorre um determinado trajeto da órbita, com um tempo X, ele sempre produzirá a mesma área Y, sendo o Sol o elemento que influência a variação da velocidade. X de tempo produz Y de área em uma órbita sempre, independente da posição. Repito aqui a frase de Kepler de sua segunda Lei: "A linha que liga o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais". Parece perfeito! Devido a isso Kepler chegou a afirmar: “Os céus contemplam a glória de Deus." Mas o porquê desta “perfeição” só foi esclarecido no início do século XX por Albert Einstein em sua Teoria da Relatividade Geral.

Sistema Solar eliptico
Ao analisar esta descoberta Kepler percebeu que Sol influenciava diretamente na mecânica planetária. Tentou relacionar a variação de velocidade e as diferentes distâncias de um planeta e outro, e concebeu que por de trás disto tudo um mesmo elemento, força, ou seja lá o que for deveria ser o responsável pelo fenômeno. Coisa que ele nunca descobriu. Mas o leitor já deve ter percebido até aqui o quão importante sua obra foi. Porém, Kepler, infelizmente, parece às vezes esquecido. Mas em minha humilde concepção, ele foi tão gênio quanto os outros. É um erro tratá-lo com mais um. Graças a Kepler, pela primeira vez na história, a teoria heliocêntrica ganhava bases e argumentos empíricos. Como veremos na terceira Lei, era possível prever com grande precisão as órbitas dos planetas de forma inédita até então. Kepler foi um grande herói, tendo em vida revelado a humanidade, e com argumentos matemáticos (campo que foi mais desenvolvido por Isaac Newton, quando este inventou o Cálculo) o heliocentrismo.

Harmonia dos Mundos
A terceira Lei de Kepler (lei dos tempos), publicada na obra “Harmonia dos Mundos”: "Os quadrados dos períodos de translação dos planetas são proporcionais aos cubos das suas distâncias médias ao Sol." Esta lei indica que existe uma relação entre a distância do planeta e o tempo que ele demorará a completar uma revolução em torno do Sol. Portanto, quanto mais distante estiver do Sol mais tempo levará para completar sua volta em torno desta estrela. Em síntese, k é uma constante igual para todos os planetas do Sistema Solar, T o período orbital e D o semi-eixo maior da órbita do planeta (distância que o planeta fica mais afastado do sol em sua órbita). Se utilizarmos o período em anos e a distância em unidades astronômicas o valor da constante é 1. A equação seria T² sobre D³ = k. A 3.ª Lei de Kepler viria mais tarde a ser generalizada por Newton de uma forma que permite aplicá-la a quaisquer corpos em movimento orbital em torno um do outro, desde planetas, a estrelas duplas, a galáxias, etc.

Equação da Terceira Lei de Kepler
Talvez, como disse, nunca saberemos, se Kepler não tivesse existido, muito dos mistérios do espaço ainda seriam mistérios. Isaac Newton delcarou: "Se enxerguei longe, foi porque me apoiei nos ombros de gigantes". Era uma clara referência a Nicolau Copérnico, Johannes Kepler e Galileu Galilei. Kepler revelou ao mundo as leis que demonstravam de forma empírica que o Sol era centro de nosso espaço conhecido até então. Kepler foi sem sombra de dúvidas uma das mentes mais importantes da história da humanidade. Não só pelo fato de ter feito descobertas importantes, mas pelo fato de ter se proposto a isso, de ter questionado as concepções impostas tanto pela ciência quanto pelos religiosos de sua época. A sua coragem possibilitou aos homens darem mais um passo rumo à evolução da ciência. Porém, a meu ver, o que é mais importante é que Johannes Kepler foi um ser humano como eu você, como Isaac Newton e Karl Marx que se permitiu pensar o mundo e o Universo. Tentou entender os mecanismos que regem a natureza e o cosmos, assim como Marx buscou entender o funcionamento da sociedade. Isso é o mais importante! 

Johannes Kepler
Foram pessoas que utilizaram suas mentes não por algo pessoal, mais para compreender a realidade em que vivemos, buscando sempre um objetivo final que é o bem de todos. Independente da crença religiosa ou concepção filosófica de cada um foram pessoas que se dedicaram em compreender o passado, o presente e futuro. Independente se era físico ou historiador, foram seres humanos que buscaram conectar os pontos e entender quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Disse Johannes Kepler: "Quanto mais o homem avança na penetração dos segredos da natureza, melhor se desvenda a universalidade do plano eterno. [...] Não nos perguntamos qual o propósito útil dos pássaros cantarem, pois o canto é o seu prazer, uma vez que foram criados para cantar. Similarmente, não devemos perguntar por que a mente humana se inquieta com a extensão dos segredos dos céus… A diversidade do fenômeno da Natureza é tão vasta e os tesouros escondidos nos céus tão ricos, precisamente para que a mente humana nunca tenha falta de alimento."

REFERÊNCIAS - Para saber mais de Astronomia e de Astrônomos recomendo estas fontes:
http://www.dannybia.com/danny/pens/johannes_kepler.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Johannes_Kepler
http://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_de_Kepler
http://www.infoescola.com/astronomia/johannes-kepler/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tycho_Brahe
http://www.ccvalg.pt/astronomia/historia/johannes_kepler.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_Cop%C3%A9rnico
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ptolemeu

Vídeos:
O Universo Além do Big Bang - http://www.youtube.com/watch?v=MLIGSOrQKEY
Mentes Brilhantes - http://www.youtube.com/watch?v=xxFXdMuqbMA (parte 1) ; http://www.youtube.com/watch?v=bgtdfI0jsi4&feature=related (parte 2) ; 
http://www.youtube.com/watch?v=QBZKMuWp_es&feature=related (parte 3) ; http://www.youtube.com/watch?v=u9Ohi-rEqzo&feature=related (parte 4) ; http://www.youtube.com/watch?v=R48_Dm6MYxE&feature=related (parte 5).



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LUCAS NOGUEIRA GARCIA

terça-feira, dezembro 20, 2011

Um Lugar familiar, mas diferente.


Relato extraído de um diário perdido, no qual não revelarei o nome do autor, para buscar preservar a mensagem entrelaçada no mais profundo de sua narração...

...

A noite parecia muito mais tranqüila que o habitual. No caminho entre o trabalho e minha casa, pouco vi além de ruas e casas que aparentavam não haver residentes ou há muito já adormeciam. Raríssimos foram os momentos em meu percurso em que dividi o asfalto com algum outro carro. O céu naquela noite estava incrivelmente estrelado, não havia sinal algum de nuvens e a lua brilhava gloriosa.



Ao sair de meu trabalho, tive uma estranha sensação de liberdade. Na verdade, não é nada anormal se sentir livre depois de um cansativo dia de trabalho. Entretanto, naquela noite, me sentia como se TODO O PESO DO UNIVERSO tivesse se esvaído no ar, deixando meu corpo em paz. Tinha a sensação de ser um daqueles aventureiros das eras antigas, que desbravavam os confins do mundo em busca de novidade. Assim eu fui para a casa.

Ao sair do carro, minha pele experimentou a mais suave das brisas da noite. É como se mãe lua me acariciasse, querendo me reconfortar. Sempre fui um cara muito paciente, que gostava de gozar dos mais singelos detalhes, amante da natureza e insatisfeito com tudo que era superficial. Sempre esperei, e assim alcançava meus objetivos. Uma vez, quando era adolescente, escutei em uma entrevista na TV, uma banda fazer a seguinte declaração: "A velocidade do caminhar, é resultado da quantidade de passos certos que você dá na vida. Quanto mais rápido você caminha para determinadas coisas, mais de formiguinha seus passos se tornam."

Guardei aquilo para sempre! Já havia conquistado muitas coisas, porém nunca estava satisfeito. Não que isso fosse algo ruim e que me corroia por dentro, isso é coisa para materialistas. Pelo contrário, era isso que me movia como ser humano, a busca eterna pelo mais, pelo saber, pelo crescer. Diferentemente dos muitos de meus colegas de trabalho, eu não queria alcançar um status, ou uma posição onde o retorno financeiro seria consideravelmente favorável. Era um desejo simples, de mostrar para eu mesmo que estava aprendendo e progredindo no que fazia. Não era uma simples escalada profissional, era uma evolução.

Ao chegar a casa, saí do carro e tirei as chaves de dentro de minha maleta de trabalho. Inconscientemente abri a porta e entrei. Após fechar a porta, liguei a luz de minha sala, coloquei a maleta sobre uma das cadeiras da mesa, e sem exitar fui subindo rumo ao meu quarto, que ficava no segundo piso da casa. Preparei-me para o banho...

...

Após sair do banheiro, me sentia tão satisfeito, sem saber o porquê, que nada mais almejava além de dormir. Desliguei as luzes e tranqüilo, deitei em minha cama. Adorava a calmaria da noite. Deitado, tinha a sensação de que não havia mais nada no mundo, a não ser o meu quarto. Era como se todas as mega-cidades poluídas do mundo não existissem, e a paisagem lá fora voltasse a ter a sua forma primitiva, natural. Meus olhos começaram a pesar e...

...

Minha vista estava completamente embaçada e uma luz forte quase me cegava por completo. Tudo era confusão em minha mente. Tive a sensação de ter sido seqüestrado, amarado, vendado, jogado dentro de um furgão e ter despertado em um lugar que não sabia onde era. Aos poucos minha visão ia voltando ao seu estado normal. Percebi que estava deitado não mais em minha cama, mas em um gramado tão fofo quanto. Sentei-me. Não estava entendendo nada. Parecia que estava de ressaca depois esgotar uma garrafa inteira de Red Label. Foi quando eu voltei ao normal e um vento fresco me envolveu.



Percebi que estava no meio de um jardim. Mas não parecia um jardim qualquer. Era uma espécie de ''praça-jardim''. Não havia canteiros, mas sim calçadas onde tranquilamente residiam belíssimas flores e árvores de no máximo dois metros, tão frágeis que seus caules eram mais finos que meu braço. Percebi que vestia uma roupa muito fina, semelhante aquelas utilizadas na Índia.



Fiquei de pé a modo de verificar melhor o lugar onde estava. Naquele momento, incrivelmente não parecia estar desesperado por não estar em meu quarto deitado em minha cama. Estranhamente, me sentia em casa. Aos poucos foi ficando mais claro o que observava e mais detalhes surgiam. Percebi que a ''praça-jardim'' simulava uma floresta em miniatura com pequenas, porém complexas, ruelas que eram delineadas pelas calçadas de flores.

Tentei aguçar mais minha visão e me assustei. O jardim se situava em uma espécie de platô, semelhante aqueles de ruínas maias, porém muito mais alto. E mais assustador que isso, era A FLORESTA ao redor do platô. O jardim era suspenso em meio a uma floresta enorme, muito maior do que qualquer outra que conhecia, a ponto de haver árvores que se estendiam a alturas bem superiores a do jardim. Lá embaixo, bem lá embaixo mesmo, corria um poderoso e caudaloso rio dourado formado a partir de uma cachoeira, que rumava tão longe rumo ao horizonte, que se perdia em meio as árvores a distância. Era uma espécie de jardim maia-babilônico bem no meio de uma floresta indescritível. Talvez, nem com mil livros seria capaz de fazer uma descrição fiel do que via.



Voltei minha visão para o jardim, pequenos animais, como esquilos, coelhos, gatos e belos passarinhos preenchiam o lugar de vida. Algumas estátuas de seres de quatro braços surgiam em meio às flores. Seriam as divindades hindus? Percebi que ao redor do jardim havia duas paredes. O jardim visto de cima tinha uma forma retangular (30 metros de lado e 15 de fundo) e tais paredes se erguiam a seis metros de altura em seus lados menores. Na parede norte, que tinha o formato de uma casa, assim como a outra, havia uma grande porta, que estava fechada. Assim como a parede, a porta também era feita de madeira. A parede oposta tinha o mesmo tamanho, com a diferença de estar TODA ornamentada de flores e não haver nem porta nem janela. O estranho é que tais paredes pareciam não ter serventia, já que as laterais de lado maior do jardim eram abertas. Uma madeira ligava as duas paredes pelo alto, onde pendiam luminárias.

O sol que iluminava o jardim era um sol das sete da manhã, e não parecia mudar. O clima era tão fresco, que tinha a sensação de estar sempre ''de banho tomado''. Aos poucos minha mente ia se adaptando ao que via, como se despertasse de um transe, foi então que avistei as primeiras pessoas. Na verdade, quero dizer, mulheres. Vi três belas jovens vestindo cada uma, uma roupa de cor diferente. Azul celeste, verde e vermelho. Elas olharam para mim sorrindo, e mais nada fizeram. Pareciam inertes, como se fossem simples planos de fundo do que via.

Caminhei pelas ruelas do jardim e percebi enquanto pegava algumas romãs para comer que a gravidade onde estava era muito mais fraca. Porém, isso parecia não me assustar. Era como se tudo aquilo, que era novo, também fosse familiar. Era como estar em um lugar onde tudo era paz. E nada era melhor. E foi caminhando pelas ruelas do jardim, que descobri que no canto sudoeste havia uma casa de madeira. Havia muitos jarros de flores, pássaros cantando nas telhas. Então, resolvi entrar. Na porta da casa encontrei um senhor, que parecia ser chinês, e tinha uma expressão de seriedade, digna dos mestres orientais, sentado em uma cadeira. Ele olhou para mim. Pela primeira vez naquele lugar tive a sensação de não estar sozinho. Ele me olhava, como que esperasse alguma atitude. Foi então, que ele me falou:

- Não entre aí. Disse ele sem mudar sua expressão.



Eu não respondi. Simplesmente olhei para ele e assenti. Depois entrei. Aconteceu que ao colocar meus pés dentro da casa, minha cabeça se encheu de uma energia muito densa. Senti como se me enchesse de sabedoria. Porém, isso quase me fez cair no chão. Meu corpo parecia não estar preparado para aquilo. Foi então que dei mais alguns passos casa adentro. Fiquei em transe como se estivesse embriagado. Tudo girava em minha visão. No centro da casa encontrei uma porta que não hesitei em abrir e entrar. Encontrei uma escada que descia para uma escuridão. Desci. Ao chegar ao nível inferior, luzes se acenderam e eu encontrei mais uma porta, que entrei. Outra escada, agora para cima. Outra porta, outra escada, outra porta, outra escada...

Foi quando senti algo MUITO estranho. Minha visão escureceu. Senti-me sendo puxado por uma força poderosa, e quando me vi, estava caído mais uma vez no meio do jardim. Havia anoitecido e as luminárias estavam acesas. Olhei para o horizonte, para a floresta na noite e percebi que havia vários pontos acesos. Eram outros jardins semelhantes ao que estava. Senti uma agitação no ar. Parecia que algo estava prestes a acontecer. Vários pássaros e abelhas voavam por cima do jardim. Havia várias mulheres enfileiradas próximas a parede sul de flores, entoando um cântico que eu não compreendia.

Eis que o senhor oriental apareceu ao meu lado. Tocou-me no ombro e disse:

- Você tem que tomar uma decisão. Disse o homem esperando que eu fosse imediato.

Ouvindo isso, parecia que não mais controlava minhas ações. Tudo era caótico. Levantei-me e corri rumo à parede norte. Olhei para a grande porta e gritei:

- Abra.

Ela começou a se abrir. As mulheres que antes cantavam, agora gritavam em tom de comemoração. Os pássaros e abelhas que sobrevoavam o jardim começaram a se retirar pela porta em uma velocidade aterrorizante. Foi então que...

...

Abri os olhos e percebi que já havia amanhecido.



LUCAS NOGUEIRA GARCIA



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